quinta-feira, julho 01, 2004

Antes do jogo, falei com minha mãe por telefone. A vascaína estava meio quieta, não tinha o tradicional traço de ironia na voz que sempre marca suas previsões a respeito do Flamengo. Pelo contrário. Tranqüila, minha neguinha mandou seu recado: "Não vou torcer contra o Flamengo, sinceramente não estou com vontade. Mas tenho certeza que o Flamengo vai perder. A cidade está tomada por um clima totalmente 'Copa de 50'". Claro que eu creditei o comentário ao recalque vascaíno e nem dei bola. Afinal, minha mãe tinha só oito anos quando o Uruguai calou o Maracanã. Ela não poderia se lembrar do clima da época. Depois do jogo, tive duas certezas: jamais desconfie da intuição da sua mãe, ainda que ela seja vascaína. E a outra: Se eu com seis anos lembro-me perfeitamente da tristeza que tomou conta da minha vizinhança após o Brasil X Paolo Rossi da Copa de 82, como eu poderia duvidar que minha mãe lembraria do clima da Copa de 50?

Não me lembro de outra derrota tão vergonhosa. Não pelo resultado em si. Já vi o Flamengo perder pior, só para não ir tão longe, basta citar aquele recente Fla-Flu que tomamos de quatro. A vergonha que sinto não é pelo vice-campeonato (afinal, ficamos à frente de todos vocês que estão aí implicando com a gente, só os 27 torcedores do Santo André realmente estão acima de nós). Mas pela forma como aconteceu. Na minha época de colégio, eu morria de medo de participar das olimpíadas, porque a pressão da torcida (meus coleguinhas de turma) era muito grande. Nos jogos que participava, sempre fazia questão de lutar o máximo possível, pelo menos para eles não dizerem depois que eu fui um peso-morto em campo. Aí eu fico pensando: e se meus joguinhos de olimpíada fossem assistidos por 72 mil pessoas em delírio, gritando o nome da minha equipe, empolgadíssimas???? Eu poderia até perder, mas certamente ia correr feito uma louca para não fazer feio. Ver os jogadores do Flamengo andando em campo ontem, desde o primeiro minuto de jogo, foi a maior prova de falta de vergonha na cara que já vi no esporte. Nem cobro profissionalismo deles, já que a diretoria do clube não os trata como tal, atrasando salários e assinando contratos duvidosos, mas uma pequena dose de vergonha na cara já cairia muitíssimo bem.
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