quinta-feira, fevereiro 12, 2004

O idioma pede socorro?



Ontem, folheando o Caderno B do Jornal do Brasil, deparei-me com o texto alarmante de Murilo Melo Filho, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras sob o titulo: O IDIOMA PEDE SOCORRO.

Eis que a coluna em tom gravíssimo nos coloca que a Língua Portuguesa corre sério risco e a Academia Brasileira de Letras "desfraldou recentemente uma nobre bandeira: A da defesa da língua portuguesa"...

Acho muito legal que os nossos velhos imortais da ABL tenham encontrado um objeto para se preocupar. Mas o que me preocupa é um certo ceticismo muito parecido com o "xenofobismo" francês.

Melo enumera os sintomas do perigo do fim da língua portuguesa. Vejamos: O fim do latim no currículo escolar - particularmente achei ótimo pelo pouco que vi dos cadernos de latim de minha mãe, vi que era uma matéria enjoada. Depois o fim do francês destes mesmos currículos. Na verdade acho que o estudante brasileiro deveria optar sobre o seu ensino, seja as matérias de latim, francês, inglês, alemão, espanhol, etc...

Nesse caso a luta da ABL passaria a ser mais profunda, na luta pela valorização do ensino público e de um sistema moderno educacional brasileiro, então a ABL estaria esbarrando não só num problema de ataque a Língua Brasileira, mas ao problema do sucateamento da educação promovida, principalmente, durante a Ditadura Militar.

Além disso, sobre a relação do currículo e a língua francesa, não podemos nos esquecer de um detalhe histórico, de que desde o fim da guerra a Europa perdeu o seu "glamour" para o "American way of life holiywoodiano".

O autor continua afirmando que: "até mesmo os professores já estão cortando a segunda pessoa do singular e do plural". Certamente Murilo não tem percorrido muito o Brasil, porque tanto os gaúchos, quanto paraenses e maranhenses usam e abusam do "Tu" e do "Vós" (aliás, um filme muito visto foi o Eu, Tu e Eles). Nesse caso o embate ficaria entre o regionalismo e o formalismo? Tenho duvida. O que tu achas, ó caro blogueiro???

A televisão brasileira aberta, por sinal, exibe raramente filmes legendados, ou seja, 98% da programação é em Língua Portuguesa e sobre a internet, já existem estatísticas que, de todos os BLOGUES (diários virtuais), os de Língua Portuguesa ocupam o segundo lugar, superado somente pelos de língua inglesa. (provavelmente Murilo tem tv a cabo e tem visto muita Fox, CNN ou a Sony).


Acredito que o brasileiro reconstruiu a língua portuguesa em língua brasileira, porque pelo menos aqui no Brasil, ela é viva e colorida - assim como o nosso povo. Sugiro então a leitura do livro CARNAVAL DE FOGO de Ruy Castro da editora Companhia das Letras para a compreensão de nossa relação com estrangeiros (europeus, americanos, árabes, orientais, etc...)

O nosso povo não vai deixar de falar a Língua Portuguesa, mas acreditar que falaremos como Camões, Gil Vicente, Vieira ou Bernardes é ter uma visão no mínimo academicista, no intuito de justificar a Academia (com letras maiúsculas) como o verdadeiro e único bastião do saber - e isso seria jogar toda a tese educacional de Paulo Freire no lixão.

Ou ela sai de seus muros e vai conhecer como o povo fala a nossa língua, ou os muros dessa academia ficarão tão altos, a ponto de quem estiver do lado de fora, nas ruas das cidades ou nos campos não verão a nobre bandeira da Academia Brasileira.

Ahhhhh sim e o povo? Bom o povo vai ouvir um "funk", comendo "beiju", "vatapá" ou mesmo um "x-burgue". Seja na porta do "bar" ou da "garagem"!!!
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