quinta-feira, fevereiro 19, 2004

O afilhado de Caetano no Haiti


Simplicidade e profundidade. Assim definiria a música "Haiti" de Caetano Veloso sobre as relações sociais no Brasil que excluem e incluem, em seus aspectos etnográficos; a herança de alguns séculos de escravidão, tanto pelos portugueses quanto pelos senhores e barões brasileiros. Um Brasil submerso em seu subdesenvolvimento provinciano.

Hoje foi identificado o algoz que protagonizou as cenas de constrangimento e discriminação a que Luciano F. da Silva fora submetido no Shopping Center Fashion Mall. Era um policial militar que fazia um "bico" como segurança de dois filhos de um famoso novelista, o Manoel Carlos e que ou por ironia ou por infeliz coincidência, discriminou o afilhado de um famoso músico, o Caetano Veloso. Isso não é Babilônia.

HAITI - CAETANO VELOSO
Quando você for convidado para subir no adro
da fundação Casa de Jorge Amado
pra ver do alto a fila de soldados quase todos pretos
dando porrada na nuca de malandros pretos
de ladrões mulatos e outros quase brancos
tratados como pretos
só pra mostrar aos outros quase pretos
(e são quase todos pretos)
e aos quase brancos pobres de tão pretos
como é que pretos, pobres e mulatos
e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
e não importa se os olhos do mundo inteiro
possam estar por um momento voltados para o largo
onde os escravos eram castigados
e hoje um batuque
com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada

e a grandeza épica de um povo em formação
nos atai, nos deslumbra e estimula
não importa nada: nem o traço do sobrado,
nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon
ninguém, ninguém é cidadão
se você for ver a festa do Pelô, e se você não for
pense no Haiti, reze pelo Haiti
o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui

e na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
diante de qualquer mesmo, qualquer qualquer
plano de educação que pareça fácil
que pareça fácil e rápido
e vá representar uma ameaça de democratização
do ensino de primeiro grau
e esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
e nenhum no marginal
e se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
notar um homem mijando na esquina da rua sobre um
saco brilhante de lixo do Leblon
a quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos, mas pretos são quase todos pretos
ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
e pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
e quando você for dar uma volta no Caribe
e quando você for trepar sem camisinha
e apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
pense no Haiti, reze pelo Haiti
o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui
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