domingo, outubro 03, 2004

O Relógio



Minha adolescência, confesso nunca ter sido inspirado por atos violentos, ou seja, nada de revidar, até porque não sou fã destas práticas – vulgarmente conhecida por (com o perdão da palavra): cair na porrada.

Assim que completei 13 anos cheios de inexperiências, ganhei de meu velho pai um relógio digital cheio de recursos, dentre eles: cronômetro, tempo regressivo, “luzinha”, despertador e hora, dia e mês. Feliz da vida, ostentava meu poderoso digital pelas ruas de Jacarepaguá e que me servia como guia, seja onde for.

Mas não é que numa tarde comum, andando em minha pequena bicicleta pelo bairro, passaram dois moleques numa velocidade absurda, num “zaz” de causar inveja ao Flash, capturaram meu relógio que foi violentamente arrancado de meu pulso. Meio atônito ainda tive forças para gritar:
- Ei!! Isso é meu!!!

Evidente que os jovens nem me ouviram e comecei a chorar compulsivamente, indo na mesma direção dos mais terríveis bandidos da minha história de vida. A cena que se configurava era meio patética, eu na rua chorando como um bebê mal alimentado, empurrando uma bicicleta, e as pessoas me olhavam com certo espanto.

O caso mais interessante foi de uma mulher que extremamente preocupada perguntou-me se eu havia sido atropelado ou caído da bicicleta. Entre soluços e choro consegui dizer:
- Roubaram meu relógio!!!
- Só isso!!!! Pensei que fosse algo grave. Tenha paciência!!
– Quase que me condenando por ter sido furtado.

Mas parece que meu escândalo surtiu efeito, um senhor tinha visto a cena, tentou interceptar os garotos que pra se livrar do flagrante, jogaram meu relógio fora. Que me foi devolvido no mesmo instante. Apesar da correia destruída, o visor falhando e o tempo regressivo em mal funcionamento, estava com o meu singelo relógio de volta.

Depois deste episódio me lembro de ter passado por mais duas experiências de furto, mas sem a mesma reação, evidente. Confesso que o trauma de um furto, ou roubo é sempre negativo, porque carrega a marca de uma violação. De um ato violento, capaz de causar a cólera dos Deuses Gregos.

O Rio de Janeiro tem sido estigmatizado por essa violência por quase uma década. A dimensão é internacional e somos nós que perdemos com esses atos. Fruto de uma série de descaso político, de um processo histórico que se inicia quando a família real se instala em nossa cidade elevando o Brasil à Reino Unido de Portugal e Algarves, atraindo povos de todos os lugares.

Sei que a violência carioca é tão grande quanto em Vitória, Porto Alegre, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, etc... Nosso grande diferencial é que a cidade, já com suas relações sociais esgarçadas até o limite da tolerância e das fronteiras entre todas as esferas de poder, estão se sobrepondo, atravessando, numa luta invisível diária e que em certos momentos são percebidas.
Conviver com esse clima de medo e pavor é o pior de tudo – vi a síntese desta sensação no último filme de Michel More - Mas tenha certeza meu caro bloggueiro. O Rio de Janeiro continua lindo e é uma ótima opção pra quem não conhece; e pra quem já conhece fica muito difícil não retornar a Cidade Maravilhosa – Babilônia do Sudeste.
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