terça-feira, outubro 07, 2003

A Febre das Canções

Eu aceito caros bloggueiros, aceito mesmo ser chamado de chato, inconveniente, velho babão. Mas esta rolando uma febre na Internet sobre um texto de um autor desconhecido, que mora nos Estados Unidos, e que, para ajudar no orçamento, esta fazendo "bico" de babá e estudante. O texto tem como nome “Canções Infantis”.
Quero dizer babilonicamente que achei o texto bobo, com equívocos enormes. (tem gente achando esse texto o máximo. Na verdade, está virando um span chatíssimo).

O tal estudioso (que não estudou nada sobre contos de fadas, muito menos sobre a subjetividade de canções infantis) nas horas vagas fica sendo baby siter tendo como método cantar canções brasileiras para uma menina americana.

Quando a tal Mary Helen perguntou pro tal estudioso o significado da canção Boi da Cara Preta, o cara simplesmente mentiu pra menina. Vejam:

(...)"Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta..." (???)
Como eu ia explicar para ela e dizer que, na verdade, a música "Boi da Cara preta" era uma ameaça, era algo como "dorme logo, caralho, senão o boi vem te comer"(...)


Lamentável esse trecho. Pelo pouco que sei dos hábitos alimentares deste animal, o boi é um herbívoro e na música não fala de “Caralho” ou de “Comer”. O máximo que um boi faz é dar chifrada.

A partir daí, o cara fica paranóico. Aliás, isso é coisa muito comum dos americanos. Ele entrou em parafuso, porque não sabia de músicas que fossem gentis e que mostrassem um mundo encantado de uma Disneylândia brasileira pra Mary. A paranóia foi tão grande, que o cara resolveu formular uma tese sobre a origem dos problemas do Brasil.

Ele parte do pré suposto que o problema do Brasil é que nós temos uma auto-estima muito baixa. Isso faz com que os brasileiros se sintam sempre inferiores e ameaçados, passivos o suficiente para aceitar qualquer tipo de extorsão e exploração, seja interna ou externa.

No mínimo, cara descontextualiza nossa história de exploração: desde a colônia até os dias atuais, que passa pelo imperialismo Americano, pela Ditadura Militar, etc.... Não. Nada disso tem sentido. Temos é um Trauma causado pelas canções da infância.

Bom, nunca me senti ameaçado por cantar a música “Atirei o pau no gato”. Pelo contrário, esta música é uma ciranda, uma grande brincadeira, na qual todos dávamos as mãos e cantávamos até chegar no miou onde todos caiam no chão!!! Quem tem atirado de verdade são as crianças norte americanas e canadenses em professores, em amiguinhos da escola. Não com um pau, mas com pistolas e revolveres desta sociedade doentia.

O conhecimento desse estudioso é duvidoso, a música “sou pobre pobre pobre” é de origem francesa, e surgiu na idade média e que tinha como função a resignação social desta sociedade pré industrial.


A música “Vem cá, Bitu!” descrita no email é uma versão escolar da musica junina.
“Cai, Cai balão. Aqui na minha mão.!!!” A música no final diz no último verso: “Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá! Tenho medo de apanhar.” Sendo um aviso para a criança que deseja pegar um balão na mão. Pelo perigo.

A música “Marcha soldado” é um reflexo de todas as intervenções e ditaduras que o Brasil teve, mas também era uma ciranda, uma brincadeira de criança.

Já a canção do “anel de vidro que se quebrou” não está relacionado “ao amor que era pouco.” A criança se apaixona rápido e com a mesma rapidez se desapaixona. Relacionar a canção à nossa sociedade adulta que tem valores monogâmicos de fidelidade até a morte, é um equivoco grave.

Agora, dizer que a musica “O cravo e a Rosa” incita a violência conjugal e de que precisamos lutar contra essas lembranças para que nossos filhos tenham um futuro melhor é um absurdo. Criança briga sim, assim como os adultos e não são estas músicas que deixam nossa sociedade, rica culturalmente, com a estima baixa.

A ORIGEM
Muitas destas canções são de origem Européia, francesa, portuguesa, etc.
Todas as crianças tem um lado mau, um lado perverso, e as músicas trabalham com estes elementos. De violência, de terror.

Os contos de fada começam com Perraut no século XVII na França, recolhendo as histórias do povo e as coloca em verso. Oferecendo aos reis as histórias da Mamãe Ganso.
As Fábulas de La Fontaine surgem na mesma época, denunciando as injustiças que aconteciam na corte e no povo. São contos que se baseiam na sabedoria prática da natureza humanas (medos, os sonhos, utopias) e contados dentro de casa, é um método de formação da criança.

A moderna industria Disney, por sinal conseguiu ameniza a dor e o sofrimento dos personagens e retirar do contexto da história, justamente os elementos da condição humana. E o que esta industria faz, é um mau, que tem como principal reflexo essa sociedade que atira. Sejam em árabes, negros ou mesmo, numa escolinha interiorana dos EUA.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Contos de fadas – Símbolos mitos e arquétipos – Autor: Nelly Novaes Coelho / Editora Difusão Cultural do Livro – 2003 - São Paulo
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