quarta-feira, junho 16, 2004

A capa da crônica


Por Renato Motta in 16 de junho de 2004

Não tinha mais que sua adolescência, Reginaldo Juca de nascença um jovem esguio, forte, belo e pobre. Conhecido por todos de sua comunidade por Capa. Seu tamanho era só documento, gostava mesmo era de soltar pipa na lage, de mergulhar no mar - apesar de não saber nadar. Adorava ser bandido na brincadeira de policia e ladrão.

Capa era teimoso. Valente e galanteador com as meninas, não poupava esforços para consuistá-las. Mas hoje Sonia é dona exclusiva de seu coração, apesar de sempre olhar, com o rabo de olho, para uma novinha ou prum rabo de saia.

Era um provocador nato, capaz de deixar os mais calmos dos mortais com a cólera dos Deuses, a ponto de extremecer um templo budista de qualquer região do planeta.

Sua personalidade era mascarada pelas brincadeiras e gozações, mas não relutava em subir na mangueira mais alta de seu bairro, ou de fazer uma coreografia funkeada no meio de uma palestra séria. No futebol ja se consagrava como titular absoluto e ai de quem o contrariasse.

A escola para Capa era um tipo de jaula, prisão ou gaiola de passarinho recém capturado. Enjaulavam-no junto com suas brincadeiras e seus sonhos.

Naquela terça feira cinzenta, Capa sentia uma queimação por dentro, uma revolta incontrolável. Queria se libertar completamente de suas angústias.

Iniciou-se então um jogo mortal. Com sua bicicleta prateada cruzava na frente dos carros em alta velocidade pela principal avenida na hora do rush. Desviar daquela figura no meio da rua era tarefa árdua para os velozes motoristas.

Capa desafiava ônibus e carros sem nenhuma distinção, com a segurança de ser intocável. Era heroi e vilão simultaneamente para os passageiros que aguardavam no ponto. Eram sua plateia naquele picadeiro real.

- Meu Deus, ele é maluco!!! - exclamava uma senhora.
- Olha só, esse menino vai morrer atropelado! - agorava outro.

Mas Capa não se importava com a ausência das palmas, queria mesmo era impressionar, e o fazia com perfeição até seu pedal resvalar, seu corpo flutuar, deslizando pelo asfalto e se espatifar no paralelepípedo.

Seus miolos ainda pulsavam vida no bueiro da esquina. Daquele dia em diante, Capa não existia mais. No seu lugar somente Reginaldo Juca fazendo parte da cruel estatística do Departamento Nacional de Trânsito.
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