quinta-feira, fevereiro 27, 2003

Os Anormais


"- Que estranho"
Resmungou aquele passageiro do 268 lotado indo pro Centro pela manhã
- "Não ouvi nenhum tiro de metralhadora a semana inteira, nenhum tirinho, ou mesmo explosão de alguma granada".
- "É mesmo" -
despertou o outro passageiro, que era pressionado contra seu companheiro de viajem,
por uma redonda barriga de um engravatado que se postava ao seu lado.

Este diálogo peculiar é normal pela sua anormalidade ou mesmo anormal pela sua anormalidade?
- então nos remetemos a velha questão galinácea, quem veio primeiro?

Na segunda feira anormal e sem lei do Rio de Janeiro - fui ao cinema assistir o filme Deus é Brasileiro de Cacá Diegues e me emocionei pela sua beleza e sensibilidade.

Ao sair do Shopping vi um menino descalço, com uma camisa do Flamengo surrada de aspecto muito pobre.
Não derramei lágrima alguma por aquela criança, muito menos pelo caos no Rio de Janeiro, pelo índice de desemprego, etc.

Essa normalidade do anormal de não se indignar pela anormalidade anormal
é a nossa arma para se proteger desta violência social.

O filme é belo porque trata esta mesma anormalia de nossa sociedade
de forma plástica, poética e bela de um Deus em pleno nordeste brasileiro.
Ontem me senti meio anormal.

Enquanto isso, meu personagem do 268 lotado, no inicio deste post comenta:
"- Já sei, hoje ainda não li o jornal O POVO para saber qual foi o presunto decapitado pelo CV."
Enquanto isso, ontem não ouvi nenhuma metralhadora.
O Rio de Janeiro continua lindo!
O prefeito Cesar Maia (PFL) fala sobre pena de morte.
E o casal do programa de TV, OS NORMAIS, são cariocas
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