quarta-feira, junho 08, 2005

A cara dos "vândalos"

Recebi por email uma crônica muito interessante sobre o que está se passando na capital de Santa Catarina, de autoria da jornalista Elaine Tavares. Vale a pena dar uma conferida

É um menino. Não deve ter mais que 12 anos. Está vestido com suas roupas escolares e leva a cara escondida por uma camiseta preta. Quer ficar anônimo para não ser reconhecido pelas câmeras da ordem. Jovenzinho, mas já sabendo de como o poder se organiza e como a gente pode se defender.

Os olhos têm um brilho único, esse que existe em nós quando miramos a eternidade. Nas mãos segura um caderno que revela as letras ainda mal-traçadas.
"Que aula, não?" pergunta, a voz com um acento de felicidade.
Está na efervescente manifestação dos estudantes contra o aumento das tarifas em Florianópolis. Deve ser da classe média, suas roupas parecem boas. Mas, está ali. Sabe o que significa para um trabalhador ter que desembolsar 6 Reais por dia para ir trabalhar. Sabe que a vida não está fácil para ninguém e sabe que sem luta nada acontece.
Minutos depois perde-se na multidão, correndo da polícia que joga bombas e balas de borracha.

O outro é um garoto do morro da caixa. Tem os cabelos pintados de amarelo, o peito cheio de correntes e um boné surrado. Usa uma camisa do Avaí e não esconde a cara.
"Foda-se!", diz para os homens de câmeras nas mãos que andam pelo meio das gentes, os famosos P-2 ( policias à paisana). Ele diz que não tem nada a perder.
Vive mal, come mal, não estuda. Desde os nove anos vende coisas no centro da cidade (balas, relógios, sombrinhas), sempre dando duro para levar comida para casa. Tem mais duas irmãs que também estão por ali.
"Esse Dário (o prefeito) é um bocó. Não vê que quanto mais reprime, mais o povo fica puto?"

A menina é aluna do Colégio de Aplicação. Está suada de tanto andar de lá para cá, no meio do povo. Leva um rolo de papel pardo, com o qual ela e seus colegas estão fazendo grandes faixas para dizerem sua palavra libertária.
Não tem 15 anos ainda, mas é uma veterana em manifestações. Esteve ativamente na primeira Revolta da Catraca no ano passado e desde menina participa das greves da universidade acompanhando a mãe. "Isso é a história viva", diz, com o rosto vermelho dessa sã rebeldia.

A mulher já passou dos 50 anos. Mora na Lagoa da Conceição. Está ali porque viu aquela meninada e achou que era direito ficar e lutar junto. Ia para casa, mas desistiu, afinal, também usa ônibus e sabe que o aumento é um abuso. Fala de Gandhi e da proposta de paz. Está aterrorizada com a força bruta da polícia.
"Não é possível que eles não vejam que é quase tudo menino."

Pensa que eles deveriam fazer como o líder indiano. Colocar as mulheres e as crianças à frente, todos de branco. "Talvez eles se sensibilizem". Vejo-a depois, correndo, quando a polícia principiou a atirar. Nenhum branco barraria a intransigência do prefeito, do governador e sua força policial.

Um garoto vestindo uma camisa do Flamengo estraçalha a vitrine de uma loja no auge da correria.

"São vândalos", berra a imprensa servil. Não, não são. São garotos impotentes diante da força, impotentes diante do esmagamento do capital, cansados da vida de dor e sofrimento na qual para comer um pão é preciso roubá-lo.

São pessoas que querem uma chance de viver a vida boa e bonita, tal e qual a dos filhos do prefeito ou do governador. São os que querem oportunidades, os que querem o fim da opressão, da miséria, da fome.

Talvez, se os jornalistas da mídia entreguista e cortesã quisessem, poderiam desvelar a verdadeira face dos vândalos. Os que fazem com que um garoto de 15 anos precise trazer dentro de si toda essa fúria, que se derrama em momentos como esse, em que a multidão assume o mando da vida da cidade.

Talvez fosse hora de mostrar a verdadeira Florianópolis, que nada tem de mágica. Um lugar onde os ricos jogam golfe e banham-se em enormes piscinas frente ao mar à custa da vida de milhares de pessoas que nada têm.

Talvez fosse bom que a mídia mostrasse que há momentos na vida em que as gentes oprimidas se olham nos olhos e descobrem sua força. E que isso explode em jorros nem sempre tão bonitos.

A violência afinal, é de quem? De um menino furioso - maltratado pela vida imposta pela lei do capital - que quebra uma estúpida vidraça ou de homens e mulheres estudados que maquinam leis e estratégias de opressão, miséria e força?

"Ah, isso é sofisma", diz um dirigente da UFSC em reunião com a administração. É, sofisma! Talvez seja para quem só vê o mundo a partir de seu carro de vidro fumê. Para quem está na rua, na vida, nos terminais de ônibus, nas comunidades de periferia, não.

A Revolta da Catraca segue firme essa semana, até a vitória!!! Porque para as pessoas que ali estão, na rua, a vida é real.

Elaine Tavares é jornalista no OLA/UFSC
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