quarta-feira, dezembro 26, 2007


As palafitas do Recife - O cenário


A lama escura dos Afogados e Ilha do Leite não consegue encobrir com sua camada espessa a vida de homens e mulheres que se equilibram em cima de palafitas. São as mais variadas formas, tonalidades e tamanhos. Algumas ensaiam seus sobrados, que na verdade não sobram quase nada em espaço lateral, procurando espichar seus pescoços grossos bem altos, com vistas para o céu.

As ruelas, quase indecifráveis, quase não delineiam e organizam o monte de pobres casarios. Os barracos serpenteiam os estreitos corredores, fazendo-se imitar o serpentear daquela gente, enganando a miséria com dribles desconcertantes diariamente. O chão cheio de areia escura se convida a entrar no interior dos barracos, fazendo parte das intimidades do povo da beira da maré.

O cheiro forte do mangue se reproduz por todas as vilas, por todas as casas, parece impregnar os corpos daquela gente metropolitana. Outros cheiros também estão presentes no cotidiano daquele povo do Recife semi-aquático. Seus lixos, tantas vezes reciclados pela necessidade, encontram sua paz no curto quintal das casas, formando um amontoado perigoso nas subidas da maré.

A mercê dos perigos das telhas e paredes inflamáveis, as palafitas se reproduzem, disputando palmo a palmo com a lama e o mangue um espaço a mais que lhe cresça os cômodos para abrigarem novas gentes que nascem e crescem no interior das frágeis favelas, num movimento quase ininterrupto de vidas produzidas no chão escuro dos barracos dos manguezais.

O espaço interior das casas de madeira e papelão não é nada grande para toda aquela gente humilde que se espreme entre a terra firme e a lama do mangue. As construções se equilibram sobre finos pés de madeiras engalfinhando a lama densa numa união que nem maré cheia consegue entender. Suas janelas não têm direção para nascerem. Ora estão para o quintal do vizinho, ora para um lado comum a todos, formando galerias expondo as misérias alheias, suas felicidades e simplicidades, conjugadas em pequenos pedaços de madeira e papelão.

As frestas entre as tábuas fazem enxergar lá longe o verde do mangue. Um espetáculo a parte: o mangue frondoso, se alimentando dos excrementos de todos, repartindo-os com caranguejo e uma mariscada sempre presente.

Cada dia que se passa a maré se espreme, os casebres se enfeitam de papelões e tábuas magrelas como os moradores, derrubando o mangue e vendo sobreviver a ínfima parte da sociedade recifense. Ínfima a parte, pois a dignidade lhes acompanha quando passam com suas carroças cheias de reciclados, hora para a construção, hora para a alimentação de seus raquíticos meninos.

Lá dentro os casebres exibem uma indumentária rota e necessária: uma lâmpada de 40 vates ao centro, para a economia na conta de luz, um sofá reciclado, uma cama reciclada, uma poltrona reciclada, algumas vidas que se reciclam todos os dias na garantia de sobrevivência. Uma barcarola aguarda amarrada lá no quintal úmido e escuro, subindo e descendo no ritmo da maré.

É ela que complementa o sustento da prole dos vilarejos.

Na beira do mangue vivem centenas de famílias retirantes, abandonadas por muitos e amadas por uns poucos sobre o olhar atento e acalentador das águas do rio.
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