terça-feira, dezembro 26, 2006


Depois das festas natalinas um momento de pausa. Um pequeno sono para descansar um corpo moído de uma noite delatada, quase interminável. A noite tinha marcado para ver o show do Cordel do Fogo Encantado. Banda do sertão pernambucano que mistura música, recital, teatro, enfim um mistura artística sem paralelo em minha opinião. Cheguei por volta das 22h00min h e fui me arrumando num cantinho ali, num cantinho aqui. Ainda travava o gosto do álcool matutino e vespertino. As pernas ainda gemiam suas dores por horas e horas a fio em pé, em pé de guerra contra os anos que teimam em avançar. Onze e meia, queima de fogos, onze e meia testes de iluminação.

O palco é povoado por grandes bonecos pendurados no teto. Saem luzes amarelas dos olhos dos grandes bonecos. Onze e quarenta. Um homem adentra o palco dominando e dominado por um boneco de luzes. Lâmpadas cibernéticas e roboticamente congruentes desenham um ser futurista. Os passos revelam a natureza sincronizada entre o homem e o robô guiado mecanicamente. A máquina não pode dominar o homem, os seus passos são contados pelos passos humanos. Aquele robô rasga o tablado de canto a canto e some na minha direita. No centro do palco, Lirinha se prepara para detonar milhares de pessoas que se esticavam para alcançar um melhor ângulo. Novas e velhas músicas sucediam enquanto o grupo teatro-circense, cômico-dramático suava seus tambores, sua viola eletrizante.

O Cordel despejava todo o seu fogo encantado, derramava a saudade de voltar a sua terra, aos seus, à terra quente de um Recife tomado pelos Cacetes de Brennand. "Salve o Cacete de Brennand", grita Lirinha em alusão às esculturas de Francisco Brennand. O encantamento de suas músicas, uma mistura de tudo e mais um pouco de candomblé, do Toré dos Arcoverde, do samba de coco, de música seca; seca como os sertões de Euclides da Cunha, secos como a descrição de Graciliano e suas Vidas Secas, secas como a Morte e a Vida Severina. No palco uma música esfomeada, pálida, seca, desesperada. Música com zumbido da noite sertaneja, de preocupações sociais. Aquele corpo magro fazia suas acrobacias sem sair do chão. Um zumbi andava de um canto a outro com seu canto afiado, apunhalado e apunhalando as vis estruturas. O que vocês estão fazendo ai? Perguntava o místico regente de milhares de almas. Venham pra rua pra lutar. Os acordes do violão, a batida do tambor a percussão, o grito, a fala, o palco se misturavam. Os postes obedeciam, apagaram-se as luzes do Marco Zero. Só o palco e nós. Cada foco de luz uma metralhadora.

O palhaço do circo do futuro se maquia enquanto canta, enquanto dança. "Pai me ensina a ser palhaço, pai me ensina a ser palhaço, pai me ensina a ser palhaço.” Isso “não se ensina seu bosta.” Estas eram as palavras do músico de pandeiro estridente, de voz de alfinete. A platéia em êxtase pulava freneticamente de um canto a outro cantando os seus refrãos; enquanto isso o corpo zumbi fazia sua evolução, sua transfiguração, sua trans-fi-gu-ra-ção, sua trans-fi-gu-ra-ção. Seus longos braços caleavam o microfone, jogavam-se quase se desprendendo do corpo, desprendendo da alma. Mais de uma hora e meia de espetáculo e nós ali registrando esta história num dia de Natal. Dessa vez a música mágica não fez chover o sertão, mas com certeza minaram os olhos de milhares de filhos da terra seca, rachada e empoeirada do sertão pernambucano.
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