quarta-feira, julho 13, 2005

Novos Canibais

Mal amanhece o dia e eles já estão na estrada. Roupa rota, andar pesado. Um sôfrego caminhar. O mau cheiro já denuncia a chegada a lugar nenhum. Caminham cedo esses homens, caminham cedo essas mulheres. A boca precisa de comida, as boquinhas também. O estômago esmurra-os fortemente. É a miserável dança do ventre. Homens e mulheres se contorcem enquanto não chegam ao destino final, final. Boquinhas a mais se contorcendo em algum lugar do mato, do barro, do velho casebre de taipa, de plástico e palha. É proibida a entrada de menores, avisa a placa. Esses, vão ter que esperar a sopa de chorume para depois.

A montanha de entulho dá a visão da desgraça que os espera de braços abertos. É mais um dia de jornada árdua, onde os espaços são disputados a tapa. Com homens e com urubus. Além de tanto sofrimento, mais uma dor e um alívio deve conviver com a mão trabalhadora, a mão batalhadora . A ausência dos filhos lhes são impostas. Sorrio e fico triste com este antagonismo funesto.

Os caminhões começam a chegar. Aumenta a expectativa. É o metal, é o plástico, é o objeto em si. Algo de descarte reassumindo o seu valor, numa comunidade sem classes, igualitárias na miséria diária. Miséria que os acompanha pelo resto de seus dias, se nada for feito. Romper bruscamente o ambiente de desalinho é infringir suas leis. Da procura. De pouca oferta, de poucas escolhas.

Aproximam-se aos montes. Rodeiam o carro. O carro-caçamba começa a inclinar suas costas e a jorrar um pouco mais de miséria da cidade por entre seus dedos, por entre seus corpos sujos, sua alma limpa, descrevendo um paradoxo horrível que se repete dia após dia. Não gostaria de pensar o que acho que eles pensam. A cada carro a esperança de comida na boca. Mas é isso mesmo. A cada carro a esperança de uma comida rejeitada pela sociedade dos homens. Rejeitada pela carne dos homens, amputada pela carne dos homens.

O tom triste, ao qual vou descrevendo “isso”, me é doloroso. Arranca-me as tripas. Me embrulham o estômago que não vou enviar para lá. Lá vem o noticiário. Uma velha de estatura baixa, dolorida, sofrida, negra aparece na minha frente, na minha tela. Fala decidida, como se não houvesse mais nada a fazer- e não havia mesmo – “Começamos a revirar o lixo, quando encontramos aquele pedaço de carne. Recolhemos e preparamos. Todos nós comemos. Só depois descobrimos que era carne de gente. Havia mais ainda lá”.

Naquele momento pensei mais e mais sobre a situação dos “Novos Canibais”. Uma nova forma de sobrevivência, que não é exclusividade do Lixão da Muribeca, mas do lixo que transformaram o mundo. Suas desigualdades sociais, suas culpas e seu egoísmo.

Fico preocupado. Sem ir lá. São dezenas, centenas de pessoas chutando urubus e se chutando para conseguir transformar em dinheiro o que não nos serve mais. Passo na frente e vejo os morros. Morros mortos. Sim. São indícios, a congregação de urubus e gente.

Acendam uma vela por favor.


José Alberto Costa
Prof. História – Pernambuco - Brasil
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