quinta-feira, julho 28, 2005

Meninos de rua – a família



Grande é a casa onde moram nossas crianças. A família cresce todo dia, como cresce a desigualdade que separa nosso povo. Brancos, pretos, morenos, "confusos", a pobreza não faz distinção de cor. São iguais na miséria. Muitas vezes andam juntinhos, dividindo cada pedaço de pão, cada garrafa com cola, as bitucas de cigarro, os famosos góias. Este é o bem comum. Seus filhos, nascem cedo, frutos do entorpecimento da alma e do corpo. Colocados à margem da sociedade, multiplicam a violência nas ruas da cidade e multiplicam-se nela. Pedir é a lei da sobrevivência, quando não muito, roubar e matar. A vida é efêmera. Mal começou, mau pode acabar. A disputa pelos espaços urbanos muitas vezes podem levá-los à falência múltipla dos órgãos. O canivete pode paralisar o coração; a navalha, o fornecimento de oxigênio para o cérebro; a bala, pode paralisar até quem não até quem não decretou falência, mas fora levada a ela. Frutos da displicência do Estado, a família cada vez mais comporta minúsculo rebentos, ariscos, perigosos, sombrios, fumantes, tóxicos. Minúsculos seres errantes em um pequeno espaço. A família de rua muda sua casa como quem muda de roupa. Ora, mal mudam de roupas, digamos de passagem.
O patriarca, bem mais velho, como tem que ser, é o detentor do tom da superioridade, conquistada no braço, na arma. Conquistou sua soberania com unhas e dentes. Normalmente é o mais violento, normalmente é o mais protetor. Sua família, sua referência. Ela gira em torno dele. Sem ele, perdem a unidade. O líder delega as tarefas diárias. A distribuição, vai desde uma mendicância, ordenada aos menores, um furto aos mais hábeis ou um assalto encabeçado pelo líder, o mentor. Atividades arriscadas de nossas pobres crianças. Nem um auxílio insalubridade, periculosidade. Nossos anjinhos de três ou quatro anos já sabem trabalhar. O teatro é a rua, seus personagens não refletem nada mais, nada menos que sua condição de excluído, sua própria realidade.
A função da mulher não está claramente definida. Fazer comida? Que comida? Servir o quê? Aumentar a prole seria uma das suas funções. Quantas vezes nos sinais não observamos pequeninas buchudinhas, latinha de cola na mão, bruguelinho do lado, ambos meninos, carregando uma criança presa no ventre. Essa é a família. Uma grande família. Não há vaidade, não há espaço para isso. Protejam nossas crianças.
Postar um comentário