segunda-feira, julho 25, 2005

Meninos de rua – a cama


Adormecem tarde da noite. O dia é longo, entre carros, poeira, correria e abandono. Suas faces, muitas vezes sujas e magras, lembram o romance do Graciliano. A seca na cidade. Perambulando dias a fio, pra lá e pra cá, esses bruguelinhos as vezes amáveis, as vezes extremamente ariscos, outras violentos, se sucedem em nossas ruas. Um copo d’água aqui, um resto de comida ali, vão passando, vão passando, eles pela vida e a vida por eles. Muitas vezes rapidamente, que podemos até chamar de anjinhos pelos pecados que ainda não cometeram.

A noite até no deserto é fria. Não haveria de ser diferente no Nordeste. Dentro de casa até que pode fazer calor, mas na rua... Seus corpos exaustos vão se enfileirando, na busca do melhor local, no pior local. Não há preocupação com higiene. As campanhas de higienização é que podem se preocupar com eles. Saúde pública, sei lá. Seus hábitos, confesso, não são os melhores. Aqueles que queremos para nossos filhos.

É um tal de chega pra lá, afasta pra cá e vão aos poucos formando uma fila indiana adormecida, nos bancos e pontes, praças e metrôs. Não toquem fogo neles, são nossas crianças. São nossas crianças do deus dará.

Não tive a oportunidade de dormir entre eles. Claro que tenho uma experiência bem parecida pelas bandas das Alagoas. Mas isso é um caso pra outra crônica. Sim. Suas as camas. Suas camas são fragrantes da criatividade que o meio os impõe. Travesseiro pode ser bolsa, pode ser panela.

Colchão. Colchão nem se fala. Um plástico, um lençol cor cinza. Cor cinza? Por que? Sim. Cor cinza, ou não lembram do chão sujo, emborrachado. A estamparia é bem variada, mas as tonalidades são sempre as mesmas, de cinza. Cinzenta como suas vidas, como suas peles, os seus futuros. Mas há uma cama bem mais difundida. Acho que modelo nacional: o velho e bom papelão de toda noite. Nem polegada de diâmetro. Ora essas. Nem centímetros. É colchão daquela marca de fogão, é colchão da marca de televisor famosa. Quer dizer famosa para gente. Imaginem o pensamento que estou pensando por eles. Hoje a noite vou me deitar naquele papelão daquela marca de geladeira que ontem vi na propaganda da loja. São bem maiores, comportam todo o corpo.

Seus lençóis. Ah! Seus lençóis. São de cortar corações. Lembro-me de algumas passagens de minha vida que parei e observei o jeito bem fetal como eles dormem. É minha gente. É posição fetal. É o frio, a fome, é a fome e o frio, noite após noite. Grandes camisas e eles dentro. Dá impressão que foram engolidos. E foram mesmo. São a nossa gente sem cabeça, sem pés, sem braços. São nossos homens camisa. Na verdade a aparência surrealista é de que estão dentro de um estômago. Que o diga o Dali. Ou seria uma placenta tamanho gigante? Durmam em paz minhas criancinhas.

José Alberto Costa
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