quinta-feira, julho 21, 2005

Menino de rua



Era noite, tinha acabado de chegar ao meu destino. Tomar umas cervejas numa quinta-feira as vezes faz parte do roteiro. Que destino? Bar da Amara. As vezes servem uma boa comida a moda pernambucana. Lembro, quando cheguei estava tocando a minha música do Roberto Carlos no bar ao lado. Ah! Emoções. Que música. Quando orquestrada fico em estado de êxtase. Bela música dos bons tempos do Roberto. Sentei do lado de fora do bar, uma espécie de underground da terra do sol. Acenei para a proprietária – Amara, desce uma cerveja bem geladinha. Ela não precisava nem perguntar qual. Já sabe o gosto do freguês. Mesmo assim ainda gritei a marca. Ela não ouviu, mais veio com a deliciosa cerveja, que meu corpo pulsava e desejava tanto. A música ainda rolava acompanhando o tempo. Acenei para um aluno que na folga passou perto de mim – Professor, tudo bem? – Tudo bem. Segunda começamos! Era a volta às aulas.

Como disse, a cerveja estava geladíssima. Adoro superlativos. Lembrei do Machado de Assis. Detive-me por alguns instantes no bar do outro lado da rua, enquanto as músicas do Roberto se sucediam, misturadas no tempo da minha juventude, misturada no tempo frio de agora. Minha cabeça girava em pensamentos longínquos. Pensava na vida, no esforço diário para conseguir sobreviver. De repente fui despertado daquele sono que se desenrolava comigo acordado – Ei, me dá um trocado! Olhei a minha direita, ali estava o próprio retrato da fome, magricela, pálido, descalço, sujinho e belo. – Tenho não, amigo! Ele me fitou com um olhar de tristeza e fome. Ainda não havia despertado inteiramente da minha viagem quase inconsciente. Pouco a pouco sua imagem foi ficando nítida. A tristeza me contagiou de repente, sua magreza me deu um safanão, ou um choque violentíssimo. Desesperadamente comecei a procurar por moedas nos meus bolsos. Bolsos da calça, nada. Ah! – Tenho sim guri. Encontrei o troco do ônibus no bolso da camisa – O que você vai fazer com este dinheiro? Não vai jogar não, não é? – Não senhor, é para comprar massa para minha irmã, e o leite, me perguntava – Ah! Então tá. Aqueles cinqüenta centavos iriam fazer a diferença – Tá com fome? O aceno da cabeça denotou na sua face tudo o que representaria conseguir comida naquele momento. Para ele deveria ser o desfecho de um dia a mais de fome. Seus olhos começaram a brilhar. Os meus também. Começaram a lacrimejar, fato que tentei disfarçar. Estávamos eu e ele ali, parados, inertes. Ele com sua fome e eu com seus cinqüenta centavos ainda na mão.

Corri ao bar – Amara, você tem pão? – Tenho sim. Por favor coloque um pão com carne e pegue um refrigerante. De longe ele assistia a tudo. Quem naquela noite poderia saciar a fome daquela criança? Não sei o que pensava. De uma coisa eu tinha certeza, a fome era muito grande. Criança não pode ver refrigerante que faz a maior festa. Com ele foi diferente. Segurou o pão com firmeza. As mãos ainda estavam sujas. O que me chamou a atenção e eu o chamei a atenção. O fato é que comia, comia, comia. Nem um único gole de refrigerante. Comia desesperadamente, a seco, enquanto aos poucos eu começava uma comunicação bem formal para entrar no seu universo sombrio, dolorido – Qual o seu nome? – Rorras – O que? Rorras. – Ror-ras? Sim. Rorras Manuel da Silva, mas pode me chamar de Manuel. Imagino quantas confusões não fez com este belo nome latino. Era ele o Rorras e eu mais um José que passou por sua vida e se fez percebido. Quantos não passam desapercebidos da realidade de milhares de Rorras aqui e ali. Em cada canto do Brasil. – Você tem irmãos? Sim. Catorze. Quase caio da cadeira de espanto. – Você é o mais velho. – Sim. Eu e minha irmão. – Quantos anos tem sua irmã? – Dez. Mas como pode isso? A irmã tem dez anos. O Rorras havia me dito que tinha nove. Isso, nove anos. – Têm gêmeos na família? Tenho. Nossa senhora, o que é isso? A miséria coletiva – Tem pai? Onde está? – Foi trabalhar. – E onde ele trabalha? – Trabalha para o prefeito. A noite, para o prefeito? Este tipo de trabalho noturno de funcionários da prefeitura, pelas condições de vida que ele apresentava, deveria ser na limpeza urbana. Não quero aqui fazer nenhum comparativo da dignidade de qualquer trabalho, mas aqui a remuneração desses pobres coitados é muito baixa. E como catorze crianças e uma mulher não são dois, nem três. São dezesseis: – Você estuda Rorras Manuel? – Sim. – Aonde? – Lá na igreja. Já sei escrever meu nome.

Já passava da hora dele dormir. Estava ali sentado na minha mesa. Eu, ele e uma testemunha. Testemunho da miséria que se abalava sobre aquela criança. Tirou algumas moedas, do pouco que tinha no bolso e disse: - Este é aquele dinheiro que falei que ia te dar. Vagarosamente vi o Rorras Manuel se ausentando, feliz em passos leves. Não estava pesado, acredito que ainda poderia está com fome. Primeiro pegou o pequeno refrigerante, colocou a tampa, fechou-o bem. Não entendi muito bem. Fechou aquele pequeno refrigerante e colocou-o na mão e segurou bem firme. Era verdadeiro. Havia mais crianças lá. Falou em catorze irmãos. O refrigerante seria o vinho da santa ceia. O pão, não poderia multiplicar, entrara de bucho adentro, fizera uma conta de dividir consigo mesmo. Ainda lembro de suas expressões. Sereno. Poucas palavras pronunciou enquanto se despedia. Lembro de minhas recomendações – Vê se não andas descalço por aí. É perigoso, você pode se cortar. Acenou com a cabeça, concordando comigo e foi desaparecendo na sua magreza.

Tive vontade de voltá-lo. Ele foi e eu ainda penso se bem está. Se há algo ainda a fazer, na esperança de reduzir sua miséria flagrante.


José Alberto Costa
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