terça-feira, janeiro 04, 2005


Faltaram as flores



Onze e meia da noite e nada dos convidados chegarem ao apartamento há cerca de 500 metros do mar. Abri uma cerveja gelada e passeava pelo pequeno rádio as canções de uma seleção que não me pertencia.

Onze e trinta e cinco. Onde estão os convidados? Seriam três, dois, um, nenhum? O fato é que os minutos não respondiam minhas perguntas, cada vez mais apertadas entre dois mil e quatro e dois mil cinco bem jovem batendo a minha porta branca, limpinha.

Só havia as horas do rádio avisando entre uma música e outra que meu tempo se tornava escasso. Onze e trinta e seis, trinta e sete. Toca a cigarra daquele prédio branco, o qual estou disposto, entre as linhas xadrez do sofá que escorregavam entre minha calça e a luz amarela que reservei ao ambiente. Tocava algo bem no clima do já vai tarde dois mil e quatro.

De repente os convidados vão se dispondo rapidamente e se acomodando entre uma cerveja e outra.
Vamos rápido!

Não era só dois mil e cinco que tinha pressa. A praia reservava um belo espetáculo pirotécnico, que eu não podia perder. Abririam-se girassóis reluzentes a minha esquerda. Com um pouco de otimismo daria pra ver as luzes de Olinda, reluzente no fundo negro da primeira meia noite de janeiro.

Metade daquilo tudo pertencia a dois mil e quatro. Tínhamos que ser justos com a
partilha das luzes. Pernambucanos começam a acender seus fogos bem antes, em pequenas queimas a contra-gotas.

Convidados arrumados e principiados na cerveja gelada, descemos as escadarias rapidamente.
- Quase perdemos a hora!

Não havia condução que trouxesse os convidados até omeu recanto no outro lado da cidade. Para que servem os táxis? Para cobrarem uma fortuna em dia de escassa condução! E chegaram a tempo.

Dobramos a esquina rapidamente. Estava descalço. Iemanjá agradeceria se estivesse de branco e azul. E assim o fiz. Aposto que tirei um sorriso de gesso da sua boca clara e de beleza descomunal. Na verdade me vesti com uma calça branca de saco de algodão, bem ao estilo dos negros escravos, camisa branca de construção igual e uma camiseta azul claro por dentro.

O vento avoassava minha vestimenta; parecia que ia decolar a tempo da luzes no céu.
- Cadê as flores? Não acredito, faltam as flores. As flores para Iemanjá. Os pés já estavam descalços, a roupa condizia com a cerimônia. Cadê as flores? Ah!
Pula, vê se alcança estas acima de nossas cabeças! Impossível, muito alto, muito
alto! Vamos tentar mais a frente quem sabe não consigamos belas flores! Calma! Esqueceram de avisar ao tempo que não havíamos chegados a praia.

Esperem! Esperem! O céu começava a pegar fogo. Não tínhamos chegados a praia e já estava maravilhosamente encandecente. E as flores? Não encontrava árvores baixas, não
encontrava muros baixos. As flores existiam às alturas e Iemanjá já se aproximava de mim. Era tarde demais. O mar surgia a minha frente, as flores eram reflexos da saraivada de fogos no mar.

Mas havia uma flor bem maior, de luz ainda maior. Uma quase meia lua presenteava a divindade do candomblé com seu amarelo sidra. Eis a você todo o meu oferecimento. Te dou a lua, te dou toda a beleza da lua. Te dou os fogos recifenses, olindenses, jaboatonenses.

Fui te encontrar de mãos vazias e acabei encontrando o teu presente a beira do mar. Era um presente em fuga como as lembranças daquela noite. Não faltaram as flores, pois existe a imaginação que pode tornar um simples feixe de luz em uma obra de arte, só para você.

Não faltaram as flores. Feliz ano novo rainha do mar.
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