quarta-feira, dezembro 08, 2004

Os passos da Conceição


(Beto)

Pela madrugada partiam. No coração a oração da santa que por eles movera montanhas. Os trajes de viagem, os mais variados possíveis. Alguns corriam. Tinham pressa de chegar no local consagrado as suas preces. Preces que a 100 anos começaram e nunca mais calaram.

Alguns traziam consigo camisas com a imagem da santa. O cansaço lhes transformaram os rostos. Muitos já desfigurados pelo tempo. Convergiam para o mesmo local, aos milhares. Milhares de pontos azuis claro subindo e descendo o morro.

Imensa ladeira separava a romaria da santa amada, coberta de azul e de flores, fumaça e velas. Milhares de velas também. "Senhora da Conceição, minha mãe minha rainha, dai-nos a vossa proteção, minha querida madrinha..." Parecia um grande formigueiro celeste. Formigas ajoelhadas, rastejantes, suplicantes; agradecendo a Nossa Senhora da Conceição pelas graças alcançadas. Pelas feridas curadas... pela casa comprada... pela conquista da amada.

Agradecer as chagas curadas, abrindo outras... pelas ladeiras altíssimas para alcançar a altíssima santa... santa dos pobres e desvalidos. Este era o ritual anual de adoração à santa. Criancinhas vestidas com mortalhas, caminhavam lentamente pelas ladeiras de pedra, molho de flores na mão. Almejavam olhar a santa, de pele clara, olhar tristonho. Olhava o Morro da Conceição atentamente.

Não lhe passava despercebido o sofrimento feliz daqueles que vieram agradecer. Tijolo na cabeça: pela realização do sonho da casa própria. Criancinhas pés descalço: pelo nascimento, de uma gravidez problemática. De joelhos, subindo ladeira: pela cura da doença terrível que lhes afligiu por anos a fio.

Também a agradecer viera o sol. Fiel de todos os anos, tornando as promessas mais carnais e realistas. O sangue desce canela a fora, a reza garganta adentro. As ruas de acesso eram romaria só.

A noite chegou era hora de voltar para casa, cansados, exausto, felizes, rendendo graças a Nossa Senhora...
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